Tem capitalismo até depois da morte? Filmes da semana #2

E aí, de boa?
Hoje vamos falar do filme "A Vida é uma Festa":
Sinopse: Em Viva - A Vida é uma Festa, Miguel é um menino de 12 anos que quer muito ser um músico famoso, mas ele precisa lidar com sua família que desaprova seu sonho. Determinado a virar o jogo, ele acaba desencadeando uma série de eventos ligados a um mistério de 100 anos. A aventura, com inspiração no feriado mexicano do Dia dos Mortos, acaba gerando uma extraordinária reunião familiar.
O filme explora a cultura mexicana do Dia de Los Muertos. Particularmente eu acho muito interessante essa perspectiva de relembrar a memória com festa, o que é diferente do que a gente faz no Brasil. Mas isso é papo pra outro dia.
No dia delos muertos as pessoas fazem as ofrendas, que são aqueles altares com fotos, velas, comida. Tudo isso parte de uma simbologia:
- O altar como um convite pras pessoas mortas visitarem os vivos
- Comida e bebida para nutrir os mortos após uma longa viagem
- Velas e flores pros mortos encontrarem o caminho
- Em essência um ato de hospitalidade.

No filme, esse conceito muda um pouco. Conseguimos ver o "céu" onde os mortos ficam, e ai que começa o realismo capitalista hahahah
O altar no filme tem um propósito economico. BASICAMENTE, no filme, se ninguém se lembra de você após a sua morte, você vai morrer de novo, só que dessa vez de forma PERMANENTE.
E aí isso cria uma lógica economica:
- Pessoas famosas, serão muito lembradas, logo -> viverão para sempre no céu
- Pessoas menos conhecidas, serão pouco lembradas, e em breve "vão de americanas pra valer".
Mas não só isso, calma que piora:
As pessoas que são muito lembradas pelas pessoas vivas são retratadas como RICAÇOS no céu. O antagonista é um cantor famoso pilantra, que depois da morte vive numa puta mansão do silvio santos. PASME: com empregados e os caralho.

E as pessoas que não são lembradas?
Malandro, as pessoas "pobres/que nao sao lembradas" vivem numas cracolândias lá do céu. Corpos definhando, esperando a "morte" que vai ser quando a última pessoa viva esquecer delas.
Doido né? É, vamos fazer umas analises agora:
Até no céu tem capitalismo?
Não tem alternativa? A lógica da mercadoria continua até depois da morte?
Aqui que a parada fica curiosa. Esse filme dialoga totalmente com o Realismo Capitalista. O livro explica a ideia de que nossa realidade é composta de compreensões do mundo baseadas em ideologia que rejeitam fatos de fora de suas interpretações.
Perai que complicou, mas é o seguinte:
Nossa compreensão de mundo é tão ideologicamente enviesada, onde o sistema capitalista se mostra como o único possível. Nessa compreensão de mundo, é difícil imaginar (mesmo na arte, cultura pop) um mundo diferente.
A mesma coisa acontece no Wall-e, onde mesmo depois do mundo ser destruído pelo capitalismo e estar zoadão cheio de lixo, o capitalismo ainda existe nos astronautas lá do filme.
Esse artigo é especial pra mim
Mark Fisher, autor do Realismo Capitalista, conseguiu sintetizar muito bem as angústias modernas no seu livro. Questões como essa desesperança sistêmica e falta de perspectiva em temas de trabalho e sociedade. Acho um livro essencial pra se localizar nesse mundo caótico.
Ele fazia muitas dessas analises de filmes e cultura pop sobre uma ótica do capitalismo tardio no seu blog k-punk. Mark Fisher nos deixou em 2017, e de uma certa forma essa é minha forma de continuar esse trabalho de observar o mundo por essa ótica.

Conclusão
O filme é bom mesmo! Tem músicas muito boas, explora a cultura mexicana, é muito interessante. Fiz esse artigo pra pensar um pouco além do obvio, e tentar fazer umas correlações com minha visão de mundo e tentar pensar o que a gente consegue identificar de ideologia.
Meme temático pra fechar:
