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Quem vai te amar quando você não for mais útil?

E aí, de boa? Começando o post de hoje já com essa paulada pra gente falar do livro A Metamorfose, do Kafka.

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Li esse livro faz alguns meses. Achei que tem algo magnético nele onde eu lembro dele quase sempre. Como se tivesse uma parada meio sem resposta que o livro me deixou.

Pra começar do fim, a principal coisa do livro pra mim é escancarar uma relação afeto X utilidade, tanto pra relações familiares, amizades, trabalho.

Num capitalismo tardio cada vez mais desumanizador, a obra mostra que lá pra 1915 tudo isso já estava por vir: alienação do trabalho, crise de identidade com um conflito entre como nos vimos e como somos vistos.

Tem muitas leituras e interpretações possíveis, mas vamos tentar passar por algumas delas.

Resuminho do livro

O livro em si tem uma narrativa muito simples e bastante cômica.

DO NADA o Gregor Sansa acorda e virou um baratão. E aí ele não consegue falar nem sair do quarto.

Aí o CHEFE do cara aparece na porta pra saber por que ele se atrasou pro trabalho kkkkk carai véi. Pensa, vc virou um baratão, seus pais tão na porta mas você não consegue abrir nem falar, e também chega seu chefe pra ver o que aconteceu. É difudê.

Daí pra frente é só pra trás. O desenrolar do livro é a família reagindo a essa transformação (eles deixam ele trancado no quarto pra não ter que vê-lo), as contas apertam (eles tem que alugar quartos da casa), o Gregor causa o caos quando sai do quarto e as pessoas veem ele.

Acredite em mim quando eu falo, o livro é engraçado pa caralho. Só que aquele humor tipo: 😂😂😂😂🤔😕🙃😭

É engraçado pelo absurdo da situação e incomoda pela profundidade e múltiplas interpretações que se pode ter.

Interpretações

Eu acho a Alienação o conceito mais gritante. Na teoria do bom velhinho Marx, alienação opera de algumas formas:

E aí que tá: o Gregor personifica tudo isso. No livro ele é caixeiro-viajante, então ele nem produz mercadorias, apenas realiza capital para outros por meio da venda.

Ao se transformar e parar de trabalhar, na hora ele perde o valor que ele tinha para o patrão e para a família.

E aí temos a culpabilização. Quando ele acorda transformado num inseto, a primeira preocupação dele é que vai perder o trem pro trabalho. Doideira hein? Já aconteceu algo com você tão absurdo que antes de vc pensar em se cuidar, vc pensou primeiro em como ia fazer com o trabalho?


Se a gente pensar em "IDAÍ? o que tem a ver esse livro de 1915 com hoje em dia?", é aí que o bixo pega.

O capitalismo tardio e neoliberal só intensificou as dimensões kafkianas.

Pensa Precarização do trabalho: O Gregor perdeu o valor ao não produzir. Corta pra gente sendo demitindo em massa por e-mail hoje em dia

Também as burocracias dos algoritmos: As outras obras do Kafka falam muito sobre burocracia, processos frios. Pensa você tentar resolver alguma coisa com a Google, Facebook, Instagram, etc... Boa sorte.

E tem também a culpabilização. A primeira preocupação do Gregor é se sentir culpado por não trabalhar. Isso dialoga com essa cultura do empreendedorismo onde "não trabalhar == depressão como falha pessoal, falha de caráter"


A pessoa Kafka

Depois do livro eu quis muito entender quem era a pessoa por trás de isso tudo.

E pasme nas contradições kkkk

O Kafka era uma pessoa de extremos. Profissional competente, ele era burocrata, bom no seu trabalho, mas odiava cada minuto daquilo. E do outro lado era um artista atormentado, muitas vezes escrevendo até de madrugada.

Esse entendimento torna a obra ainda mais rica, pois toda a fragmentação descrita não era "de fora", era o próprio Kafka vivendo e se enxergando aquela forma.


A Maçã

O mano também tinha uma relação complicadíssima com o pai. No livro, o pai do personagem Gregor joga uma maça no lombo dele (do inseto) durante uma briga, e aí essa maça fica presa no casco do inseto.

Com o passar do tempo, o Gregor vai sendo cada vez mais abandonado pela família. A maça, ainda encravada nas costas dele, vai aprodrecendo, inflamando, juntando sujeira e poeira.

Essa visão da maça é a representação do trauma pro Kakfa. Uma ferida que se origina na violência, nunca é tratada e só piora com o tempo.

Brutal ce é loko.

Pra fechar

Bom, espero que esse post explique porque eu achei tão foda esse livro, e porque ainda lembro dele toda semana. As vezes eu vejo uma situação e penso nessa ideia da alienação, do valor pessoal enquanto utilidade.

O livro ressoa tanto justamente porque o Kafka não resolve nada, não oferece saída, nem conforto. Só escancara a brutalidade do absurdo, me faz sentir um tanto estrangeiro no mundo.

MAS LEIA. O livro é muito cômico, tem muita ironia situações ridículas. As personagens se mantendo sérias diante de situações absurdas é muito engraçado kkkk. Pro Kafka, humor e horror se tocam. Talvez a saída pro sofrimento é rir do inescapável.

MAS E AÍ?

QUEM vai TE amar quando você não for mais útil?

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